poesia poesia e poesia, poemas metidos à prosa, astrologia, cinema, vídeo e mais questões obcuras no claro

Saturday, December 03, 2005

O POETAR...

"A poesia não é verso, não é rima, é a natureza da essência das coisas. É de natureza epifânica. Poesia não é assunto, não é discurso. POESIA é revelação da realidade".
(Adélia Prado, quando da resposta à célebre pergunta: 'o que é poesia?', por ocasião de uma entevista concedida à mim, na I Bienal do livro de Goiás).

"O papel da poesia, e da arte, mas da poesia de uma forma extrema, foi sempre o de buscar o limite da expressão, o limite da forma, a ruptura com o imediato, aquilo que se ouve e não se percebe que ouviu. O papel do poeta sempre foi nos falar daquilo que ouvimos mas que passou batido".
(Um certo professor Luis P. da USP, numa palestra da Bienal, não me lembro mais o nome dele, achei isto entre anotações e julguei interessante).

Felicidade aos poetas que não fazem poesia!

Esse blog ainda tem leitores??

Monday, October 03, 2005

Palavras são coisas

"O REAL É TUDO QUE ESCAPA À LINGUAGEM". (Lacan)


Palavras, pedras constantemente retiradas
do lugar. Movimentos cáusticos.
Palavras são pássaros em pânico, em paz.
Pequenos cubos de gelo na memória.

Monday, August 29, 2005

a busca da filha perdida

Acordei Angélica
de um sonho - tragédia
embalada em cantos lunares
uma busca por todos os lugares
por uma falta tamanha
como uma falta que ama
eu ninava sozinha meu ventre vazio dela

Então contava aos tolos
rasgando meu corpo como a um cartaz
e ascendia as mamas dizendo:
Ela é minha. minha. minha filha!

Cantando ao povo deste nenhum lugar
eu embalava minha dor oblíqua, inquilina,
ausência de minha menina.

Onde? " Sim, me leva para sempre Beatriz
me ensina a não andar com os pés no chão,
para sempre é sempre por um triz... ah diz
quantos desastres tem na minha mão"

Estive a noite toda envolta pelo vulto
de meu futuro fruto
meu ventre desnudo ardia
meu busto enleitado se erguia
num clamor tenebroso de perda

Minha intuição fora tardia
quando eu olhei, já não a via
e vivi plenamente em sonho
a dor de perder a melhor parte de mim.

Sunday, August 21, 2005

HAJA

A luz seria o sinal,
como a benção de um passarinho incansável.
No seu canto preto eu ouço a minha vida
sem os devidos contornos, estendida, adiante.

Um passo a frente de mim este cimento puro,
um passo a dentro e nem o corvo mais solene se renderia.

Eu tenho a minha vida, esta, que provavelmente é a única coisa que tenho e não sei o que fazer com ela.
Seria insanidade estar distante.

Sai uma fumaça do chão em direção ao raio de luz,
são oito horas da manhã e o bosque hoje acorda comigo.
Minha melancolia está cheia de espasmos. Calmos.
Que haja luz haja o que houver.




31 de março de 2005

Monday, July 18, 2005

A típica crise construtiva - ser humano

Não há contento, nem ultimamente onde há felicidade. E a felicidade, nos moldes em que é possível conhecê-la, dentro do que se pode chamar de extra-ordinário na realidade, no passar dos dias, eu posso dizer, eu acho, só não sinto porque não me largo. Mas existe uma liga, uma espécie de melado cósmico que me projete com sucesso no coro dos felizes. Então: porque eu sou feliz? Claro que eu não tenho tudo que quero e sou, meramente, dentro do que me é possível parecer. Ou: porque sou tão melancólica? Uma melancolia que não me deixa sair de mim muitas vezes e quando há permissão para a contemplação da natureza, por exemplo, ela só parece acompanhar meu estado negro de espírito. Como se a natureza, num tom bem expressionista, tomasse a forma de meus desejos coibídos pela vida que não se aceita a mais, não há mais, não há porém, é assim e o resto é imaginação. Me irrita muito o senso de realidade das pessoas que não sabem sofrer, não sabem chorar, só sabem se conformar (como o João Gilberto naquela música). Eu tenho uma inconformidade, algo de eterno-ausente que me atormenta independentemente de como esteja a minha vida. E olha, veja bem, só estou ponderando isso porque minha vida está numa fase muito boa dentro dos parâmetros do possível, do tempo e do espaço. Parto do princípio das minhas relações mais impressindíveis tipo: eu e minha mãe sempre vivemos em pé de guerra e hoje está tudo tão certo, ela a´te me dá dinheiro sempre que peço e vem cheia de presentes, coisa estranha... meu pai é muito tranquilo, somos iguais (uma relação edipiana bem narcísica também), eu naõ dou trabalho e assim ele não dá trabalho. tem o meu passado: sou uma pessoa de muitos desafetos mas não há nada muito gritante no momento, vira e mexe revisito com a memória um antigo amor mas é como olhar um álbum de retratos ou reler diários, pois tenho um talento inigualável de arquivista. outra coisa, finalmente não estou atolada de trabaho, inclusive parei de trabalhar, com aval (para a sustentação devida) da família e só estudo o que eu mais amo, cinema. e assisto filmes jurando que a cada nova obra recrio meus olhos de lince. na medida do possível também faço filmes graças as facilidades das novas tecnologias e alguns contatos e amigos, apesar de viver em Goiânia. Talvez seja esse meu primeiro problema: sede de cultura e arte. já suguei quase tudo que há aqui, daqui um ano me formo e preciso sair daqui. me formo num curso que não me suporta e preciso vazar algum potencial criativo que eu sei que há em mim, há, até escrevo versos, até faço filmes e tenho um bom ouvido para a música do mundo e dos discos, então quero mudar e não mais ser isso... ser outra coisa? não. quero ser isso que sou mas para me firmar em outro lugar. sou muito guiada pelo ambiente. mas abandonar todos os laços? será que farei outros tão fortes? será que me tornei adulta? tenho sonhado em ter uma filha... ou melhor, em sonho ela existe e se chama Beatriz, porque é a música que eu mais gosto no mundo, não tem uma vez que ela toca e eu não choro. a melodia é foda! e a letra! puts! uma parceria do milton com o chico. minha filha é um sonho recorrente e eu fico sempre querendo saber quem é o pai e nunca descubro. merda! e o que realmente faz diferença: o amor, eu tenho um amor. tenho um namorado que eu amo, amo de verdade, coisa rara de alma e de espírito mas nem esse amor me lava da minha imcomprensão. e amo outras cores porque tenho medo do eterno enquanto convivo com o eterno que há em mim. Minha tia me disse ontem que a coisa mais difícil do mundo é morrer, achei interessante, deve ser, tanta gente fica tentanto e não consegue. eu não. sou feliz. não tenho tendência à depressão, sou triste e melancólica porque há um cemitério em mim que não me mata e me faz viva, viva e cheia de dúvidas. nada demais, nada demais. só escrevi este desabafo porque estou numa fase mais objetiva, tentando racionalizar minha intra-realidade. porque metaforizar tudo é muito facil pra mim. precisava virar o disco um pouquinho. O que eu quero de mim? É só um hiato sonolento nesta manhã de segunda-feira. Cabem neste vazio todas as perguntas, inclusive as que eu não consigo elaborar.

Monday, July 11, 2005

Carlos Drummond de Andrade para Hilda Hilst

Hilda Hilst foi uma mulher dedicada à contemplação e a destruição da existência a partir do que entendia ser o universo feminino. Se dedicou inicialmente e sempre à poesia, portanto, à literatura, ao invisível, ao sagrado, a loucura (dizia receber extra-terrestres em sua casa) mas dedicou-se sobretudo aos homens, abrigando em sua casa ("A Casa do Sol" nos arredores de Campinas-SP) muitas vezes mais de um amante e muitos amantes das artes, gente de fino trato... quem caiu em suas garras não por acaso foi o velho Carlos Drummond de Andrade, desse jeito aí, ele mesmo descreve abaixo.

Abro a folha da manhã
Por entre espécies grã-finas
Emerge de musselinas
Hilda, estrela Aldebarã.

Tanto vestido enfeitado
Cobre e recobre de vez
Sua peclara nudez
Me sinto mui perturbado.

Hilda girando boates
Hilda fazendo chacrinha
Hilda dos outros, não minha
Coração que tanto bates.

Mas chega o Natal
e chama à ordem Hilda
Não vês que nesses teus giroflês
Esqueces quem tanto te ama?

Então Hilda, que é sab(ilda)
Manda sua arma secreta:
um beijo de morse ao poeta.
Mas não me tapeias, Hilda.

Esclareçamos o assunto:
Nada de beijo postal
No Distrito Federal
O beijo é na boca e junto.

(é perceptível minha falta de inspiração mais recente para textos nesse blog, portanto, tentarei contribuir com o que ando lendo e descobrindo por aí...numa dessas encontrei esse poema não publicado de Drummond e percebe-se porque ele não foi publicado. C.D.A todos conhecem mas H.H. provavelmente será novidade para muitos. Hilda Hilst...a obscura/liminosa... guardem esse nome. Ela faleceu recentemente e nos deixou mais de 50 anos completamente dedicados a literatura. Uma mulher muito mas muito a frente de seu tempo, nossa primeira pós-moderna e olha que teoricamente pertenceu a geração de 45. Talvez esse o motivo para ela só estar sendo conhecida agora. É ela, a pornográfica, depois de morta indicada pra crianças no vestibular... enfim, em breve colocarei mais textos dela aqui, faço questão.)

aqui vai um trecho que, inclusive, narra a cena de abertura de um filme aí, ainda a ser lançado, 'Poupe-me dos detalhes sórdidos', meu primeiro filme no sentido literal, muito inspirado em Hilda.

" Isso de mim que anseia despedida
para perpetuar o que está sendo
não tem nome de amor
nem é celeste ou terreno
Isso de mim e marulhoso e tenrro,
dançarino também.
Isso de mim é novo
Como quem come o que nada contém
A impossível oquidão de um ovo
Como se um tigre reversivo
veemente de seu avesso
Cantasse mansamente."

do livro CANTARES

Monday, July 04, 2005

O CANTO DA SEREIA

Metáforas são flexíveis por construção.
Estão permanentemente absolvidas da distorção de sentido
Contorcem os temas
Dando ordens
Por assassinato mesmo
Pela busca de um novo sistema
que
Por preferência
Por si, não se explique.

Uma metáfora é a licença arquiteta
anti-acadêmica das palavras meio sonsas.
Por mais que o eufemismo ótico seja tátil,
vale a lógica metafórica
flexível por ser mágica.

Entre energia elétrica e magnética
esta respectiva diferença técnica:
uma, luz refém de imagem quer ser vista
E outra, o canto da sereia,
que para tal oculto descobre o mundo ou não existe.
Melhor é o invisível.

O segredo do desejo é matéria
Descoberta não.

Para um grão afogado em retórica
Nessa intera fica a marca das palavras
desencontradas no vão de uma metáfora.

Princípios para uma Ode

Sim à terra firme!
O céu é o firmamento!

Assim sendo, não ao teto
esse antigo projeto de céu,
outro inferno
do desejo descoberto.

E, sim, talvez
porque mudei a firmeza de lugar,
aluguei um canto de céu
e veio a paz também
me dar um canto de terra
para que eu semeasse estas estrelas,

e até que em fim despejasse
um pouco de pele nessa de agora
que nem verdade, dispersa.