Não há contento, nem ultimamente onde há felicidade. E a felicidade, nos moldes em que é possível conhecê-la, dentro do que se pode chamar de extra-ordinário na realidade, no passar dos dias, eu posso dizer, eu acho, só não sinto porque não me largo. Mas existe uma liga, uma espécie de melado cósmico que me projete com sucesso no coro dos felizes. Então: porque eu sou feliz? Claro que eu não tenho tudo que quero e sou, meramente, dentro do que me é possível parecer. Ou: porque sou tão melancólica? Uma melancolia que não me deixa sair de mim muitas vezes e quando há permissão para a contemplação da natureza, por exemplo, ela só parece acompanhar meu estado negro de espírito. Como se a natureza, num tom bem expressionista, tomasse a forma de meus desejos coibídos pela vida que não se aceita a mais, não há mais, não há porém, é assim e o resto é imaginação. Me irrita muito o senso de realidade das pessoas que não sabem sofrer, não sabem chorar, só sabem se conformar (como o João Gilberto naquela música). Eu tenho uma inconformidade, algo de eterno-ausente que me atormenta independentemente de como esteja a minha vida. E olha, veja bem, só estou ponderando isso porque minha vida está numa fase muito boa dentro dos parâmetros do possível, do tempo e do espaço. Parto do princípio das minhas relações mais impressindíveis tipo: eu e minha mãe sempre vivemos em pé de guerra e hoje está tudo tão certo, ela a´te me dá dinheiro sempre que peço e vem cheia de presentes, coisa estranha... meu pai é muito tranquilo, somos iguais (uma relação edipiana bem narcísica também), eu naõ dou trabalho e assim ele não dá trabalho. tem o meu passado: sou uma pessoa de muitos desafetos mas não há nada muito gritante no momento, vira e mexe revisito com a memória um antigo amor mas é como olhar um álbum de retratos ou reler diários, pois tenho um talento inigualável de arquivista. outra coisa, finalmente não estou atolada de trabaho, inclusive parei de trabalhar, com aval (para a sustentação devida) da família e só estudo o que eu mais amo, cinema. e assisto filmes jurando que a cada nova obra recrio meus olhos de lince. na medida do possível também faço filmes graças as facilidades das novas tecnologias e alguns contatos e amigos, apesar de viver em Goiânia. Talvez seja esse meu primeiro problema: sede de cultura e arte. já suguei quase tudo que há aqui, daqui um ano me formo e preciso sair daqui. me formo num curso que não me suporta e preciso vazar algum potencial criativo que eu sei que há em mim, há, até escrevo versos, até faço filmes e tenho um bom ouvido para a música do mundo e dos discos, então quero mudar e não mais ser isso... ser outra coisa? não. quero ser isso que sou mas para me firmar em outro lugar. sou muito guiada pelo ambiente. mas abandonar todos os laços? será que farei outros tão fortes? será que me tornei adulta? tenho sonhado em ter uma filha... ou melhor, em sonho ela existe e se chama Beatriz, porque é a música que eu mais gosto no mundo, não tem uma vez que ela toca e eu não choro. a melodia é foda! e a letra! puts! uma parceria do milton com o chico. minha filha é um sonho recorrente e eu fico sempre querendo saber quem é o pai e nunca descubro. merda! e o que realmente faz diferença: o amor, eu tenho um amor. tenho um namorado que eu amo, amo de verdade, coisa rara de alma e de espírito mas nem esse amor me lava da minha imcomprensão. e amo outras cores porque tenho medo do eterno enquanto convivo com o eterno que há em mim. Minha tia me disse ontem que a coisa mais difícil do mundo é morrer, achei interessante, deve ser, tanta gente fica tentanto e não consegue. eu não. sou feliz. não tenho tendência à depressão, sou triste e melancólica porque há um cemitério em mim que não me mata e me faz viva, viva e cheia de dúvidas. nada demais, nada demais. só escrevi este desabafo porque estou numa fase mais objetiva, tentando racionalizar minha intra-realidade. porque metaforizar tudo é muito facil pra mim. precisava virar o disco um pouquinho. O que eu quero de mim? É só um hiato sonolento nesta manhã de segunda-feira. Cabem neste vazio todas as perguntas, inclusive as que eu não consigo elaborar.